Pelé - Resenha crítica - Edson Arantes do Nascimento
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Pelé - resenha crítica

Esportes, translation missing: br.categories_name.modo_copa e Biografias & Memórias

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-1-84739-488-0

Editora: Pocket Books Simon & Schuster

Resenha crítica

Pelé. A Autobiografia

Imagine ter dezessete anos e carregar o peso de um país inteiro nas costas. Você está na Suécia, num gramado verde que parece longe demais de casa, e a final da Copa do Mundo se aproxima do apito final. O placar diz que o Brasil é campeão pela primeira vez. Mas você não comemora. Você desaba. Cai em prantos no ombro do goleiro Gilmar, soluçando como o garoto que ainda é por dentro.

Esse garoto se chamava Edson. O mundo o chamaria de Pelé. E a história dele não é só sobre gols, taças e dribles impossíveis. É sobre um menino que cresceu vendo o pai chorar pela derrota do Brasil em 1950, que aprendeu a transformar miséria em invenção, e que passou a vida inteira tentando equilibrar duas pessoas dentro de um mesmo corpo: o mortal vulnerável e o mito blindado.

Nas próximas páginas, você vai conhecer os bastidores que as manchetes nunca contaram. A traição dos sócios que quase o quebrou. A violência tolerada pelos árbitros. O filho na cadeia de Tremembé. E a teimosia de um homem em consertar, fora das quatro linhas, o que o futebol sozinho não podia resolver.

As ruas de terra e o nascimento do rei.

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 1940, em Três Corações, Minas Gerais. O pai, Dondinho, era atacante talentoso, mas um joelho machucado arruinou a carreira antes da hora. A família se mudou para Bauru, no interior paulista, atrás de qualquer trocado. Pelé virou engraxate ainda criança e vendia amendoins que ele mesmo roubava dos trens da Sorocabana parados na estação.

Foi nesse cenário que a paixão pela bola virou obsessão. Sem dinheiro para comprar uma de couro, ele e os amigos do time da rua, o Sete de Setembro, jogavam descalços com bolas feitas de meias enroladas e pano amarrado por barbante. Dondinho, longe dos gramados, sussurrava lições técnicas que valeriam ouro: chutar com as duas pernas, cabecear no tempo certo, respeitar a bola.

O apelido nasceu por acaso, e ele odiava. Os amigos zoavam a forma errada como o pequeno Edson pronunciava o nome do goleiro Bilé, do Vasco de São Lourenço, antigo colega do pai. Pelé. Ele detestava o som. Mas o nome grudou. E houve um outro choque que marcou aquela infância: o dia em que viu o corpo de um piloto acidentado no necrotério local. O sonho de voar morreu ali. Os pés ficaram fincados na terra vermelha de Bauru, junto com uma promessa silenciosa de vingar as lágrimas do pai diante do rádio em 1950.

O salto para Santos e a coroa na Suécia

Aos quinze anos, Pelé embarcou sozinho para Santos. Cidade grande, sotaque diferente, medo no estômago. Mas em poucos meses, o garoto magrelo das categorias de base já estava no profissional, deixando zagueiros experientes para trás. Waldemar de Brito, o olheiro que o descobrira, tinha razão. Aquele moleque era diferente.

A convocação para a Copa de 1958 quase não aconteceu. Um pontapé de Ari Clemente o deixou com o joelho esquerdo inchado às vésperas da viagem. E havia outro obstáculo, mais cruel. O psicólogo da comissão técnica, João Carvalhaes, atestou no papel que a joia carecia de espírito de luta, que era infantil demais para o peso de uma Copa do Mundo. Hoje sabemos ler aquele laudo pelo que ele realmente era: uma forma educada de racismo travestido de ciência.

Vicente Feola ignorou o laudo. E o mundo viu. Aos dezessete anos, Pelé fez três contra a França, dois contra a Suécia na final, incluindo aquele gol em que matou a bola no peito, deu um chapéu no zagueiro Gustavsson e mandou para o gol. No apito final, o garoto desabou no ombro de Gilmar e chorou como se estivesse devolvendo ao pai, em forma de medalha, o choro engolido oito anos antes.

A caça ao homem nos gramados do mundo

O retorno ao Brasil foi um delírio. Bauru recebeu o filho ilustre com desfile e um Romisetta de presente, carro modesto que ele exibia como troféu. Mas o ano seguinte, 1959, escancarou o outro lado da fama. Pelé era recruta no 6º GAC, a Artilharia de Costa Motorizada, e precisava jogar pela seleção do exército, pelo Santos e pela Seleção Brasileira ao mesmo tempo. Dormia pouco, viajava sempre, recebia ordens de sargentos que não sabiam o que fazer com o ídolo nacional fardado.

Em 1962, no Chile, veio a primeira dor de assistir à festa do banco de reservas. No segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, sentiu o estalo na virilha. Distensão muscular grave. O massagista Mario Américo aplicava toalhas quentes em vão. O Brasil foi bicampeão sem ele. Garrincha brilhou. Pelé chorou outra vez, agora de impotência.

E veio 1966, na Inglaterra. Os defensores búlgaros entraram para machucar, os portugueses depois fizeram pior. Os árbitros assistiam de braços cruzados. Não era futebol, era carnificina. Pelé saiu do campo mancando, com a promessa silenciosa de nunca mais jogar uma Copa. O auge do Santos nos clubes, com títulos da Libertadores e Mundial Interclubes contra Benfica e Milan, não apagava aquela ferida.

A consagração definitiva no Azteca

O caminho até 1970 começou com uma claustrofobia que poucos imaginam. A imprensa contava cada gol que faltava para os mil. Cada partida virava espetáculo de circo, com flashes na cara antes mesmo do apito. Quando finalmente veio, num pênalti contra o goleiro argentino Andrada, sob chuva no Maracanã em 1969, Pelé fez algo que ninguém esperava. Pegou a bola, abraçou-a e pediu, ao vivo, que o país olhasse para as criancinhas pobres. A elite torceu o nariz. Os pobres entenderam.

A decisão de jogar a Copa do México foi um ato de fé. Pelé voltou atrás da promessa de 1966 porque o grupo treinado por Zagallo tinha algo raro: talento, disciplina e oração coletiva antes dos jogos. Não havia sistema defensivo do mundo capaz de prender aquela seleção.

O torneio virou álbum de figurinhas eternas. O voo impossível de Gordon Banks defendendo a cabeçada que parecia gol feito. O chapéu no goleiro uruguaio sem tocar na bola. E a final contra a Itália, 4 a 1, coroada pelo passe cego, milimetricamente ensaiado nos treinos, para a bomba de Carlos Alberto. Aos vinte e nove anos, o menino que prometeu vingar o pai entregou a Taça Jules Rimet de presente para o Brasil. Para sempre.

A despedida amarga e o renascimento em Nova York

O adeus à Seleção em 1971 foi um Maracanã com 180 mil gargantas implorando em coro: Fica! Fica! Pelé deu a volta olímpica chorando, sabendo que não voltaria atrás. O cansaço acumulado de turnês intermináveis, armadas pelos cartolas do Santos para faturar com sua presença em estádios obscuros de quatro continentes, tinha consumido o que sobrava de fôlego.

Pior veio depois. Pepe Gordo, amigo e procurador de confiança, havia gerido suas finanças com amadorismo perigoso. A empresa Sanitária Santista escondia dívidas que ninguém previra. Pelé acordou para descobrir que estava à beira da falência. Voltou aos estudos, encarou a vergonha de renegociar contratos, jurou nunca mais entregar sua vida financeira a terceiros sem fiscalização.

A salvação veio com sotaque americano. Em 1975, sob mediação nada menos que do Secretário de Estado Henry Kissinger, Pelé assinou com o New York Cosmos. O desafio era duplo: refazer o patrimônio e fazer americano gostar de futebol. Ele conviveu com Robert Redford, Muhammad Ali, Mick Jagger e Andy Warhol em festas que pareciam outro planeta. Em 1977, levantou o título da NASL e se despediu num jogo emocional entre Cosmos e Santos, pedindo ao microfone: Love! Love! Love!

O drama silencioso da família

Por trás de cada estádio lotado, havia uma casa vazia. Os anos de turnês globais corroeram o casamento com Rosemeri, mãe de seus primeiros filhos. O divórcio veio em 1978, logo após o nascimento de Jennifer. Pelé carregava a culpa do pai ausente como uma lesão crônica que não fechava.

A ferida mais funda, porém, foi Edinho. O filho que seguiu carreira como goleiro do Santos acabou envolvido em investigações ligadas a drogas e passou sessenta dias trancafiado na penitenciária de Tremembé, segurança máxima. Pelé visitava em silêncio, sentindo na pele a impotência de quem driblou zagueiros do mundo todo mas não conseguia driblar o destino do próprio sangue. Chorou ali também, longe das câmeras, sem o ombro de Gilmar para amparar.

A reconstrução veio devagar. O casamento com a cantora gospel Assíria, o nascimento dos gêmeos, as tardes longas na fazenda Sossego, em Juquiá, onde podia pescar, cuidar dos cavalos e existir como Edson. A fazenda virou refúgio, fronteira sagrada onde o mito ficava do lado de fora do portão e só o homem entrava em casa.

A política, os ternos e a Lei Pelé

Em 1977, a ONU o reconheceu como Cidadão do Mundo. Veio o engajamento com a FIFA, com o UNICEF, com causas que misturavam futebol e dignidade. Mas a batalha mais suja Pelé travaria dentro do próprio país. Em 1995, aceitou o convite de Fernando Henrique Cardoso para ser Ministro Extraordinário do Esporte.

Foi quando descobriu, na carne, que os cartolas brasileiros jogavam mais duro que qualquer zagueiro búlgaro. O sistema do passe prendia jogadores a contratos draconianos, transformando atletas em propriedade de clubes. A Lei Pelé, inspirada no Caso Bosman europeu, queria libertar essa mão de obra. O lobby foi violento. Verbas comunitárias eram negociadas em troca de votos. Cartolas ameaçavam, intrigavam, manipulavam imprensa.

A lei passou, ainda que mutilada. Pelé saiu do governo cansado, mais lúcido sobre os tubarões de terno do que jamais fora dos zagueiros violentos. Tinha aprendido que mudar regras institucionais era mais difícil que driblar quatro homens na área. E, ainda assim, valia a pena.

O homem por trás da marca.

Pelé criou, ao longo da vida, um código comercial inegociável. Recusou contratos bilionários para anunciar cigarro, bebida alcoólica e religião. Dizia que sua imagem pertencia ao esporte e às crianças, não a vícios que adoeciam as mesmas comunidades pobres de onde ele tinha saído. Procuradores torciam o nariz. Ele não cedia.

Convivia com a dualidade crônica. Edson era o mortal: o pai que chorava pelo filho preso, o marido que falhou em casamentos, o brasileiro que olhava as terras vermelhas de Bauru com saudade. Pelé era o blindado: o sorriso global, a estátua de bronze, a marca que faturava em quatro continentes. Manter os dois separados foi o trabalho mais exaustivo da carreira.

Olhar para trás é entender que a genialidade dentro de campo construiu o mito, mas foi a teimosia em consertar o que estava torto fora dele, da Lei Pelé à recusa em vender a alma, que salvou o homem por trás da marca. O sorriso que o mundo conheceu custou um preço que o mundo nunca viu. E foi pago, gol por gol, lágrima por lágrima, por um menino de Bauru que nunca esqueceu o chão de onde veio.

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Quem escreveu o livro?

Pelé, cujo apelido mundialmente conhecido corresponde ao nome Edson Arantes do Nascimento, é amplamente considerado um dos maiores jogadores de futebol da história. Atacante da seleção brasileira, foi o único jogador a conquistar três títulos da Copa do Mundo FIFA, nos anos de 1958, 1962 e 1970. Em 1999,... (Leia mais)

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